sábado, 11 de janeiro de 2014

Minha menina

Às vezes parada, inventando em silêncio gestos que não se concluem. Às  vezes sonora, numa ânsia de contato e calor. Exploradores, os olhos se buscam e se enchem de realidade. Não são ainda olhares, porque fazem parte do cenário olhado, esse oceano populoso e emaranhado que os outros chamam de gênero humano. Motivos, causas e efeitos, escolhas e desculpas, direções e verdades, são coisas pesadas demais. É para uma lembrança vívida do útero durante um banho quente que ela aponta as suas vontades, em sonhos investigativos.

"Viver é muito difícil", ela pensa, quando compõe giros de dor ou espreita, imersa na penumbra, as sombras vigilantes na plateia.

"Qual parte do mundo sou eu?", indaga, com os braços agitados e um pouco exaurida dessa brincadeira de colorir-se e incorporar o que não é mundo.  

Pois a vida dela é uma procura. Essa menina vai primeiro absorver como esponja cada uma das lágrimas de felicidade e também as de preocupação. Depois vai mergulhar na busca de um espelho perdido de si mesma no meio da chuva de possibilidades. Vai se debruçar na janela, e vai criar raízes, para enfim tornar-se botão de flor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O bairro

reconheço esta rua de postes tortos
debaixo de sóis fatigados, ancestrais
e fixos, aquecendo os vazios
onde carros abandonados queimam por dentro.

corro a mão pelos muros fundos
as fachadas dos bares abrem passagem
na frente da escola: a célebre pichação
placas de mude-se declamam versos de aviso.

folhas amarelas fazem barulho debaixo dos meus tênis
uma grande ceia se arma ao redor das esquinas
os camelôs calculam
e os números quicam nos bueiros.

o mendigo sonha em cima dos papelões
pousado no antes, ensimesmado
cachaceiros, crentes, tomadores de empréstimos
observadores de bundas, comedores de cachorro-quente
em fila, na alegoria do encontro
um braço esguio me empurra de lado a lado entre os passantes
infindável ritual.

nas fendas de loja
entre as grades torcidas dos terraços
dentro do cimento, nos pontos de ônibus
zunem, correspondem
lançam-se do alto dos toldos
úmidas, senegalescas, enfeitiçadas de tempo
as vigas primitivas da cidade.

então eu ouço a noite sendo chamada na praça histórica
limpo a luz da testa
e puxo as moedas para a passagem de volta.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

The big party theory


De altíssima velocidade a internet daqui, alucinante. Mas compartilhada entre todos os moradores. Logo, uma carroça medieval. A possibilidade teórica, só teórica, de filmes inteiros em alguns segundos, programas pesadíssimos baixados como quem abre uma pasta, instantâneos. Pois nada disso é possível quando todos estão nos quartos debruçados ao mesmo tempo em seus PCs. E aqui é sempre assim.

Então a música alta começa. Pois eu fui. Caí lá pelo subsolo para ver esse negócio de festa, essa curiosa turba, essas pessoas que chegam e começam a dançar inexplicavelmente, manobrando sem objetivo, sem jeito de ter que te cumprimentar e lembrar do seu nome, só por educação.

Gente irrompendo de trás das portas, por baixo das escadas, montadas nos elevadores. O alojamento inteiro e gente de outros cantos também para ouvir e sentir a festa, no salão lotado. A FESTA. As melhores roupas, aquelas guardadas para o evento, os mais queridos sapatos, os olhares largos e decididos, girando na superfície ou mergulhando no fundo das pessoas, sempre convencionais.

- E você, o que anda aprontando? - Já bebeu absinto? - Mora aonde mesmo? - Já foi no Arteplex? - E o flamengo, heim? - Ah, tá. Já bebeu absinto?

Estavam todos lá, os de cima, os de baixo, os insones, os que não paravam nunca, os desconhecidos, eu também, infelizmente. Tendo que ouvir funk em volume extremo, tendo que sorrir ainda por cima. De repente arregalei os olhos, de ter tido uma idéia óbvia. Pus em prática na mesma hora.

Mas quanta alegria a de voltar ao mundo, correr no silêncio dos corredores. Fugir muito antes do fim para executar no meu quarto downloads na velocidade da luz, um cometa no espaço. 700 Mega em 30 segundos! Todos os fluxos desaguando aqui nesta máquina, ela agradece. Foi feita para ocasiões assim, de gala.

sábado, 27 de junho de 2009

Um recado


Eu não sou triste. Sei que você não está aí, mas entenda isso. É que toda vez que nós nos falamos e discorremos sobre a distância física que nos separa eu não consigo conter isso que se parece com tristeza aos teus olhos, e até tem, assim, um sopro de tristeza, mas não passa do impacto que eu sinto diante da tragédia de não ser convidado a estar aí agora com você nesse momento.

Não acredite na minha aparência melancólica, Catherine. Ela nasce e morre só nas nossas conversas. A tristeza se aloja na minha voz quando você surge com as tuas promessas de adiar o calor do meu abraço.

Essa capa de tristeza, Catherine, que se apodera de mim justo na hora em que a gente se fala é a minha ansiedade de querer pegar nas mãos aquilo sobre o qual nós conferenciamos com tanta erudição e você acha por bem deixar que permaneça no estado abstrato. Mas, ora, esse o quê de indefinível já foi concreto um dia.

Eu não sou triste: mas eu me torno sim triste, a título provisório, nesses momentos perfeitos em que a gente exercita a nossa sintonia um no olho do outro e tenta fazer de conta que é sem objetivo.

Você se põe a convocar outros temas: a música dos gatos trepando no telhado, os aviões no céu do extremo ocidente, o frio vindo do rabo da noite lá fora. Eu sei que eles servem para você não padecer também de carona na minha ansiedade, sendo ela uma droga compartilhável.

Quem dera você visse esse meu lado que as frases entre a gente não mostram, esse meu desejo. Sim, Catherine, desejo. Eu estava tentando te dizer, sem racionalizações. O fascínio dos teus olhos, a chama da vela no black-out, a nossa história, o suor na testa do alpinista, a epopeia heroica dos nômades na puberdade da Terra.

Esse argumento eu não consegui achar ao vivo com a coloração certa, então eu digo agora assim de longe sem correr o risco de ser interrompido, sem medo de que você pegue esse telefone de repente. Sei que você não está aí, não chegou da faculdade. Vou também escrever, Catherine. Te mandar meu sentimento por carta porque acho que você não ouve essa coisa, nem sei por que comprou. Sei que não vai ouvir nunca. É uma pena, porque, é certo, a gente expressa muito melhor no silêncio do que na interação esse absurdo todo, esse indizível, esse imponderável que afinal de contas é o desejo.

Eu e você. Isso deveria ser preenchido com tintas mais fortes. Eu me pergunto por que essa frase, esse fato sintático “eu e você”, tem que ser só uma aglomeração de palavras e não um episódio concreto do mundo real. A gente muito debateu isso, mas não nos termos certos: era para eu deixar de ser esse ausente espectro no cume da montanha noturna que você vê brilhar às vezes lá longe, fora do foco da tua câmera. Era para eu estar no quadro e para isso bastava só um chamado, ou um clique no botão que os teus dedos ainda não encontraram a vertigem certa para apertar.

E quando eu tentei te dizer estas coisas não tive como não ser triste. Quisera eu estar aí e te revelar a minha não-tristeza. Acredite, eu sou mais do que nunca e resolutamente de uma vez por todas um tipo não-triste. Deslizar no romantismo ou no idealismo também não é comigo. Quero ser concreto e maciço, bruto, cortante e colérico. Sou? Como saber?

Essa gravação você pode pôr o teu terapeuta para ouvir, Catherine, ele que te encorajava a não reprimir mais o teu desejo. Para ele saber um pouco mais o que é o teu desejo, ou o teu não-desejo, que ao fim e ao cabo entra igualmente como um desejo só que com o sinal invertido, por isso mais forte e inescapável. Talvez ajude, já que você ainda não tinha encontrado as palavras que o definissem, o seu outro, esse outro distante, esse qualquer coisa no caminho, esse enigma que envolve os teus sonhos. Eu, Catherine.

Sei que combinamos, eu e você, de evitar voltar a esse tema: eu e você. Combinamos? É difícil subir à superfície depois de mergulhar em águas tão profundas...

sexta-feira, 27 de março de 2009

Enxaqueca


Ela veio sem cerimônias. Tudo silencioso, tudo consertado, pacífico, naquele dia. Eu, no meu quarto, sobre uma montanha de memórias. Revoluções atmosféricas do lado de fora, é certo. Mas o vento parava ao perceber a porta fechada do quarto. Vi minha sombra sorrir ali atrás, meu vulto era um tapete deitado no chão branco.

Folheava páginas envelhecidas de lembranças. Revi cenas, reescrevi com a imaginação as falas, juntei palavras ditas. Misturei tudo num discurso jamais dito. Olhei a tela negra da TV e meu reflexo era um desfile de alegorias azuis. O tempo fez uma pausa. Ao retomar a visão, senti o peso das minhas pálpebras.

Foi quando ela chegou. Veio com dois martelos na mão, decidida a destronar minha mente, despregá-la de onde estivesse pendurada. Mil ratos alucinados correram convulsos para fora da toca e o eco que se podia ouvir era uma nota desafinada. Os soldados do meu país tombam inertes no horizonte escuro. Um porta-aviões na vertical, plantado no mar. Um deus desvairado derrubando o sótão. Ela veio desse jeito, tão repentinamente que eu não pude lhe estabelecer uma forma nem adivinhar a fisionomia.

Tornei-me espectador da minha desgraça. Olhos ao contrário, podia ver um exército de rochas em duelo contra o muro e eu no meio, um tigre gordo suspenso por um fio que se desfaz, uma briga de galos no box do banheiro – indecentemente limpo.

Eu me abrigava em cobertores, apagava as luzes, procurava fechar os olhos com chave, e até fiz isso, mas mesmo assim não podia deixar de perceber, lá longe, um relógio imortal a gritar uma música circular. Ruídos periódicos, uma espécie de bomba escondida nos alicerces do prédio do meu corpo. Vindo estereotipadamente, chegando, chegando, pisando cada passo.

Ela me possuiu inteiro. Sua seiva jorrou no mesmo rio das minhas lágrimas e seu coração de granito chocou-se contra o meu, feito bola de bilhar, expulsando-o para debaixo da mesa.

Não foi embora, ficou aqui, cheia de raízes. E não posso mais dizer que sou dono dos meus pensamentos.

domingo, 23 de novembro de 2008

Ei, Caxambu, vai tomar no...


A cidade de Caxambu, Minas, não é assim tão pequena como muitos pensam. Eu pude comprovar isso nesse último congresso de Ciências Sociais. Não tem nada de interessante na cidade quando você vai pela segunda vez, então o que resta é passar o tempo bebendo com os amigos. No meu quarto ficaram três outros caras: um chileno, um paraibano, e um sujeito de Pelotas, e a gente, na última noite, resolveu comprar uma coisa diferente. Era uma bebida rosa, parecia uma batida de morango, mas muito alcoólica e vinha em umas latas muito pequenas. O chileno pegara carona na noite anterior com um caminhoneiro que também vendia isso no bar. Sim, um caminhoneiro dono de bar, ué. A gente ficou bebendo aquilo a noite toda e, quando chegou de manhã, hora de se dirigir à rodoviária, eu já estava muito louco. Cara, eu já estava bêbado, então eu abro o frigobar do quarto do hotel e me deparo com mais um monte daquela bebida maluca estocada! Será que alguém ia revender? Peguei algumas latas para ir bebendo no caminho. Mochila nas costas, parei no ponto do ônibus que ia me levar à rodoviária. Reparei que os hotéis se desocupavam, as sujeiras das festas eram varridas e a cidade voltava ao que era. Os comerciantes contando dinheiro e eu ali bêbado, nem notei que peguei o ônibus errado. Até vi que as pessoas dentro da condução não tinham o naipe de quem está saindo de um hotel rumo a uma rodoviária, elas nem carregavam bagagens. Mas resolvi esperar, a fim de saber para onde estávamos indo. Acho que a viagem durou mais de uma hora. Fui bebendo durante todo o trajeto e às vezes, entre uma dose e outra, tinha a esperança de que na próxima esquina surgiria a bendita rodoviária.

Mas não. O motorista nos despejou num lugarzinho que eu nem sei se pertence a Caxambu, bem longe. E eu por acaso fui parar na parte boêmia do bairro. Em pleno sol escaldante, fui me embrenhando em um recinto não muito bem freqüentado em busca de um banheiro. Não sei se era um grande boteco ou o quintal de alguém. Muitas pessoas ali, parecia um churrasco de confraternização ou algo assim, várias mesas e cadeiras de metal e garrafas de cerveja e pessoas empoleiradas umas nas outras ao som de funk, eu fui abrindo caminho e pedindo passagem. Lembrei da cena do filme do Beto Brant, “O invasor”, na qual o personagem principal adentra a esmo um inferninho brega e a câmera gira em torno dele. Eu estava assim, parecia que tinha uma câmera girando ao redor da minha cabeça. Uma garota mexeu comigo, “Psiu, psiu”, e fez como se fosse segurar minha mão. Não sei por que, eu e ela ficamos abraçados sem falar nada. Até que eu sussurrei em seu ouvido: “Eu estou louco.” Ela se desgrudou na hora, horrorizada, o rosto cheio de pena. Eu queria pelo menos voltar ao hotel e descansar um pouco e essa minha doidice súbita passaria. Disse isso a ela, pedi ajuda. Então ela se dirigiu a uma amiga gordinha sentada debaixo de uma sombra na entrada. A gordinha me olhou e foi falar com um sujeito sobre o meu caso. Ficaram os três conversando atrás de uma bancada de jogo do bicho. Eles informaram que o Hotel Glória era longe, que era melhor pegar um táxi. Eu poderia telefonar para uma central de táxis, do meu celular. Mas qual o número? Ninguém sabia. Aí a gordinha, não sei por que, meteu na cabeça que eu era gringo e principiou a falar em inglês comigo. No que eu respondi: “Pardon, je parle uniquement français, mademoiselle”. Ela ficou bem assustada, coitada.

Eu não sabia realmente o que fazer. Foi quando percebi lá do fim da rua um táxi salvador vindo na minha direção. Mas que merda, ocupado. Pelo menos o número do telefone da empresa estava estampado na lateral. Anotei. Puxei o celular e disquei. Nenhum som. Tentei de novo e nada. Muito estranho aquilo. Parecia que ia completar a chamada, mas na hora h, alguma coisa errada acontecia e o telefone ficava mudo. “Ah, querem saber, eu vou é a pé!”, disse com raiva. Fui andando tonto pela avenida de onde viera o meu ônibus. Uma avenida cercada de casas, biroscas, lojas de pipas e confeitarias de lado a lado. Segui acreditando que ela me conduziria de volta ao hotel. Eu fui andando, andando e andando e depois andei mais. Me ferrei bonito. A avenida foi desembocar numa subida de favela. Puxei de novo o celular. Não é possível que esse número não chame! Nada aconteceu. Mudo de novo. Será que eu anotei errado? Dei meia volta pela avenida. Já sei, olhar as placas. Se eu me guiar por elas eu chego ao hotel. Numa delas vai estar escrito “Hotel Glória a 50m” e eu poderei descansar um pouco para aí então pegar o ônibus certo até a rodoviária. Vi uma que dizia “Centro” e mandava dobrar à esquerda. Fiz isso e dessa vez cheguei num trecho de rua que descia bruscamente, como se ela tivesse sido pavimentada sobre um vale profundo. Executei a descida com perfeição, apesar de um pouco cambaleante. Estranha aquela geografia. Toda uma parte da cidade em um nível muito abaixo do restante. Se der uma chuva muito forte aquela área vira um grande lago. Pelo menos atrairia turistas.

Aproveitei a sombra do muro de uma igreja para descansar um pouco. Parecia ser a igreja principal da cidade. Fui perguntando às pessoas dali se elas sabiam o número de alguma empresa de táxis, mas ninguém sabia. Contornei a igreja e abordei um grupo de mulheres de semblante amigável, coisa rara ali. Elas me disseram que aquele número anotado estava certo, sim. Que talvez fosse problema no sistema deles. Fui andando próximo a elas até que uma me perguntou de onde eu era. Foi aí que me lembrei de um detalhe e resolvi o enigma. Eu deveria digitar o DDD de Minas antes de qualquer chamada, já que o meu celular é do Rio. Nossa, eu bebi tanto que o meu raciocínio tinha se esvaído. Daí eu disquei o código e em seguida o número da empresa de táxis e deu certo! O táxi demorou um pouco, mas veio. “Pra onde vamos, senhor?”. “Pro Hot... Ah, toca pro Grajaú!”. “Hã!?”. “Quer dizer, Hotel Glória.”. “Ah, tá”.

domingo, 14 de setembro de 2008

O universo cabia naquele quarto


Ela seguiu pelo corredor do andar de cima e adentrou o quarto, que ele mantinha sempre caótico, acumulado de manuscritos e rascunhos de livros nunca publicados, CDs de Jazz furtados, livros do Bukowski na cama e lençóis revoltosos. Pôs as mãos na cintura e fez uma pose fútil, balançando os quadris enquanto perguntava:

– Por que você não foi sábado no Noites Dançantes e quando eu te liguei parecia um velho reclamão que não gosta de nada e fala mal de tudo? O que você fez sábado? Você já foi no Noites Dançantes?

E ele, dedo indicador ao alto e as coxas sustentando uma xícara de café, respondeu, com um sorriso de velho numa fisionomia de 19 anos:

– Sábado eu fiz um poema imortal, ô garota. Você já fez um poema imortal?

Então se virou para a janela e continuou a olhar a chuva fina do final da tarde.