terça-feira, 15 de maio de 2018

Só se vive uma vez


 se vive uma vez, é o que penso, de repente.

Eu aqui, longe do calor do seu corpo, numa esteira de devaneios, com a janela aberta, relembrando as nossas histórias e pactos, vivencio na minha cabeça cada uma dessas cenas como se tivessem acontecido na vida real.

Tem um bater de asas aqui dentro do meu coração que pertence a você, Catherine, pois foi você, e só você, aquela cujo sorriso se prendeu no meu próprio rosto e me fez ficar assim desse jeito, meio bobo e sonhador.

Entendo a cautela, entendo a espera gradual, entendo que se deva fazer valer o exercício do tempo. Mas o entender nem sempre rima com o querer, pois aquilo que eu quero mais do que tudo é continuar no ritmo das batidas do seu coração, sem freios, sem obstáculos. Eis o meu desejo: deixar a porta aberta, escancarada, e me resfriar no embalo da ventania, sem culpa. Resfriado e realizado.

Pois só se vive uma vez e nada mais precisará ser dito. Eu decreto aqui e agora, para mim mesmo, sem discursos, fora da trama da linguagem, que lutarei para viver cada valioso segundo ao seu lado com a intensidade que precede um apocalipse. Que se restitua aquele nível onde nós começávamos a funcionar muito bem, abaixo de qualquer razão. "O início da grande aventura", você disse.

E por ter me dado conta de que só se vive uma vez é que percebo as implicações de tudo isso: não teremos outra oportunidade. Quero então todas as dimensões de Catherine a que eu tenho direito. Sim, novas doses, maiores até. Meu coração embriagado pedindo mais.

Eu e minha sensação de que preciso conquistar cada sorriso que sai da sua boca feito um músico de jazz executando sem partitura as notas de um improviso.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O sentimento e a razão


Se idealizo algo é quando ingenuamente acredito ser capaz de me desacorrentar dessa dualidade entre o sentimento e a razão. Se idealizo a mim mesmo nesse esforço por tocar o que quer que seja de real é porque julgo que as ideias não têm nenhum propósito a não ser o de contradizer as condutas. Fico pensando na minha conduta, na verdade. Fico pensando em cada retalho que me cobre não como algo que se costura por ideias, mas como um tecido feito por mãos como as suas.

É como se as nossas conversas corressem num nível acima dos mortais, uma confabulação de deuses. E aí o desafio é sempre fazer caber toda a nossa razão na estreiteza do mundo, ou na ordem dos sentimentos, pois é o sentimento a força que me move, sempre foi. É como se eu me desvirtuasse a todo momento e a razão me faltasse por conta de sentimentos inesperados que brotam e me derrubam apenas para que no momento seguinte eu seja levantando por eles. Esse seu sorriso, Catherine, do outro lado da tela. Eu viveria colado a esse sorriso, contra toda a racionalidade, contra todas as convenções, contra a lógica. Pois eu acho que é assim que a própria lógica entra nas coisas, feito o ar dos nossos pulmões que faz flutuar um balão colorido.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

"Cada relação levou embora uma parte de mim"


"Cada relação levou embora uma parte de mim". 

Fico aqui tentando diluir entre as mãos o mistério do que você falou, tentando aguçar os meus olhos noturnos que reviram as memórias da tarde. Penso em você como alguém que não tem medo de nada e por isso divide comigo a mesma sombra, como alguém que enxergou na minha silhueta esquiva a marca invisível dos que se reconhecem mesmo no escuro.

É nesse subterrâneo onde a gente repousa  que eu queria estabelecer as minhas pegadas. Queria permanecer como que rabiscado no teu caderno, decifrando contigo o eco distante dos que falam ao nosso redor.

Queria poder entrar sempre sem bater por essa porta que você guarda para mim, atrás de todo um edifício de palavras convidativas.

Queria inventar com você o código secreto que dá acesso a todas as respostas e conservá-lo ao abrigo do mundo apenas porque assim decidimos, como uma forma de exercitar a nossa sintonia.

E quando você fala que a sua história arrancou pedaços de você, eu só fico pensando no diamante lapidado que sobrou disso tudo, na beleza dessa obra que apareceu nítida diante dos meus olhos, artefato esculpido das suas próprias escolhas de artista, de autora de si mesma.

Sim, Catherine, beleza. É como se eu estivesse agora lendo todo aquele punhado de páginas que você quis jogar fora e que depois vieram a nos servir como um esboço da nossa própria história secreta.

E se eu fosse te dizer tudo o que desejo, teria que escrever contigo nestas folhas amassadas todas as frases nuas de sentido que ainda não foram escritas.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Minha menina

Às vezes parada, inventando em silêncio gestos que não se concluem. Às  vezes sonora, numa ânsia de contato e calor. Exploradores, os olhos se buscam e se enchem de realidade. Não são ainda olhares, porque fazem parte do cenário olhado, esse oceano populoso e emaranhado que os outros chamam de gênero humano. Motivos, causas e efeitos, escolhas e desculpas, direções e verdades, são coisas pesadas demais. É para uma lembrança vívida do útero durante um banho quente que ela aponta as suas vontades, em sonhos investigativos.

"Viver é muito difícil", ela pensa, quando compõe giros de dor ou espreita, imersa na penumbra, as sombras vigilantes na plateia.

"Qual parte do mundo sou eu?", indaga, com os braços agitados e um pouco exaurida dessa brincadeira de colorir-se e incorporar o que não é mundo.  

Pois a vida dela é uma procura. Essa menina vai primeiro absorver como esponja cada uma das lágrimas de felicidade e também as de preocupação. Depois vai mergulhar na busca de um espelho perdido de si mesma no meio da chuva de possibilidades. Vai se debruçar na janela, e vai criar raízes, para enfim tornar-se botão de flor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O bairro

reconheço esta rua de postes tortos
debaixo de sóis fatigados, ancestrais
e fixos, aquecendo os vazios
onde carros abandonados queimam por dentro.

corro a mão pelos muros fundos
as fachadas dos bares abrem passagem
na frente da escola: a célebre pichação
placas de mude-se declamam versos de aviso.

folhas amarelas fazem barulho debaixo dos meus tênis
uma grande ceia se arma ao redor das esquinas
os camelôs calculam
e os números quicam nos bueiros.

o mendigo sonha em cima dos papelões
pousado no antes, ensimesmado
cachaceiros, crentes, tomadores de empréstimos
observadores de bundas, comedores de cachorro-quente
em fila, na alegoria do encontro
um braço esguio me empurra de lado a lado entre os passantes
infindável ritual.

nas fendas de loja
entre as grades torcidas dos terraços
dentro do cimento, nos pontos de ônibus
zunem, correspondem
lançam-se do alto dos toldos
úmidas, senegalescas, enfeitiçadas de tempo
as vigas primitivas da cidade.

então eu ouço a noite sendo chamada na praça histórica
limpo a luz da testa
e puxo as moedas para a passagem de volta.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

The big party theory


De altíssima velocidade a internet daqui, alucinante. Mas compartilhada entre todos os moradores. Logo, uma carroça medieval. A possibilidade teórica, só teórica, de filmes inteiros em alguns segundos, programas pesadíssimos baixados como quem abre uma pasta, instantâneos. Pois nada disso é possível quando todos estão nos quartos debruçados ao mesmo tempo em seus PCs. E aqui é sempre assim.

Então a música alta começa. Pois eu fui. Caí lá pelo subsolo para ver esse negócio de festa, essa curiosa turba, essas pessoas que chegam e começam a dançar inexplicavelmente, manobrando sem objetivo, sem jeito de ter que te cumprimentar e lembrar do seu nome, só por educação.

Gente irrompendo de trás das portas, por baixo das escadas, montadas nos elevadores. O alojamento inteiro e gente de outros cantos também para ouvir e sentir a festa, no salão lotado. A FESTA. As melhores roupas, aquelas guardadas para o evento, os mais queridos sapatos, os olhares largos e decididos, girando na superfície ou mergulhando no fundo das pessoas, sempre convencionais.

- E você, o que anda aprontando? - Já bebeu absinto? - Mora aonde mesmo? - Já foi no Arteplex? - E o flamengo, heim? - Ah, tá. Já bebeu absinto?

Estavam todos lá, os de cima, os de baixo, os insones, os que não paravam nunca, os desconhecidos, eu também, infelizmente. Tendo que ouvir funk em volume extremo, tendo que sorrir ainda por cima. De repente arregalei os olhos, de ter tido uma idéia óbvia. Pus em prática na mesma hora.

Mas quanta alegria a de voltar ao mundo, correr no silêncio dos corredores. Fugir muito antes do fim para executar no meu quarto downloads na velocidade da luz, um cometa no espaço. 700 Mega em 30 segundos! Todos os fluxos desaguando aqui nesta máquina, ela agradece. Foi feita para ocasiões assim, de gala.

sábado, 27 de junho de 2009

Um recado


Eu não sou triste. Sei que você não está aí, mas entenda isso. É que toda vez que nós nos falamos e discorremos sobre a distância física que nos separa eu não consigo conter isso que se parece com tristeza aos teus olhos, e até tem, assim, um sopro de tristeza, mas não passa do impacto que eu sinto diante da tragédia de não ser convidado a estar aí agora com você nesse momento.

Não acredite na minha aparência melancólica, Catherine. Ela nasce e morre só nas nossas conversas. A tristeza se aloja na minha voz quando você surge com as tuas promessas de adiar o calor do meu abraço.

Essa capa de tristeza, Catherine, que se apodera de mim justo na hora em que a gente se fala é a minha ansiedade de querer pegar nas mãos aquilo sobre o qual nós conferenciamos com tanta erudição e você acha por bem deixar que permaneça no estado abstrato. Mas, ora, esse o quê de indefinível já foi concreto um dia.

Eu não sou triste: mas eu me torno sim triste, a título provisório, nesses momentos perfeitos em que a gente exercita a nossa sintonia um no olho do outro e tenta fazer de conta que é sem objetivo.

Você se põe a convocar outros temas: a música dos gatos trepando no telhado, os aviões no céu do extremo ocidente, o frio vindo do rabo da noite lá fora. Eu sei que eles servem para você não padecer também de carona na minha ansiedade, sendo ela uma droga compartilhável.

Quem dera você visse esse meu lado que as frases entre a gente não mostram, esse meu desejo. Sim, Catherine, desejo. Eu estava tentando te dizer, sem racionalizações. O fascínio dos teus olhos, a chama da vela no black-out, a nossa história, o suor na testa do alpinista, a epopeia heroica dos nômades na puberdade da Terra.

Esse argumento eu não consegui achar ao vivo com a coloração certa, então eu digo agora assim de longe sem correr o risco de ser interrompido, sem medo de que você pegue esse telefone de repente. Sei que você não está aí, não chegou da faculdade. Vou também escrever, Catherine. Te mandar meu sentimento por carta porque acho que você não ouve essa coisa, nem sei por que comprou. Sei que não vai ouvir nunca. É uma pena, porque, é certo, a gente expressa muito melhor no silêncio do que na interação esse absurdo todo, esse indizível, esse imponderável que afinal de contas é o desejo.

Eu e você. Isso deveria ser preenchido com tintas mais fortes. Eu me pergunto por que essa frase, esse fato sintático “eu e você”, tem que ser só uma aglomeração de palavras e não um episódio concreto do mundo real. A gente muito debateu isso, mas não nos termos certos: era para eu deixar de ser esse ausente espectro no cume da montanha noturna que você vê brilhar às vezes lá longe, fora do foco da tua câmera. Era para eu estar no quadro e para isso bastava só um chamado, ou um clique no botão que os teus dedos ainda não encontraram a vertigem certa para apertar.

E quando eu tentei te dizer estas coisas não tive como não ser triste. Quisera eu estar aí e te revelar a minha não-tristeza. Acredite, eu sou mais do que nunca e resolutamente de uma vez por todas um tipo não-triste. Deslizar no romantismo ou no idealismo também não é comigo. Quero ser concreto e maciço, bruto, cortante e colérico. Sou? Como saber?

Essa gravação você pode pôr o teu terapeuta para ouvir, Catherine, ele que te encorajava a não reprimir mais o teu desejo. Para ele saber um pouco mais o que é o teu desejo, ou o teu não-desejo, que ao fim e ao cabo entra igualmente como um desejo só que com o sinal invertido, por isso mais forte e inescapável. Talvez ajude, já que você ainda não tinha encontrado as palavras que o definissem, o seu outro, esse outro distante, esse qualquer coisa no caminho, esse enigma que envolve os teus sonhos. Eu, Catherine.

Sei que combinamos, eu e você, de evitar voltar a esse tema: eu e você. Combinamos? É difícil subir à superfície depois de mergulhar em águas tão profundas...