sábado, 27 de junho de 2009

Um recado


Eu não sou triste. Sei que você não está aí, mas entenda isso. É que toda vez que nós nos falamos e discorremos sobre a distância física que nos separa eu não consigo conter isso que se parece com tristeza aos teus olhos, e até tem, assim, um sopro de tristeza, mas não passa do impacto que eu sinto diante da tragédia de não ser convidado a estar aí agora com você nesse momento.

Não acredite na minha aparência melancólica, Catherine. Ela nasce e morre só nas nossas conversas. A tristeza se aloja na minha voz quando você surge com as tuas promessas de adiar o calor do meu abraço.

Essa capa de tristeza, Catherine, que se apodera de mim justo na hora em que a gente se fala é a minha ansiedade de querer pegar nas mãos aquilo sobre o qual nós conferenciamos com tanta erudição e você acha por bem deixar que permaneça no estado abstrato. Mas, ora, esse o quê de indefinível já foi concreto um dia.

Eu não sou triste: mas eu me torno sim triste, a título provisório, nesses momentos perfeitos em que a gente exercita a nossa sintonia um no olho do outro e tenta fazer de conta que é sem objetivo.

Você se põe a convocar outros temas: a música dos gatos trepando no telhado, os aviões no céu do extremo ocidente, o frio vindo do rabo da noite lá fora. Eu sei que eles servem para você não padecer também de carona na minha ansiedade, sendo ela uma droga compartilhável.

Quem dera você visse esse meu lado que as frases entre a gente não mostram, esse meu desejo. Sim, Catherine, desejo. Eu estava tentando te dizer, sem racionalizações. O fascínio dos teus olhos, a chama da vela no black-out, a nossa história, o suor na testa do alpinista, a epopeia heroica dos nômades na puberdade da Terra.

Esse argumento eu não consegui achar ao vivo com a coloração certa, então eu digo agora assim de longe sem correr o risco de ser interrompido, sem medo de que você pegue esse telefone de repente. Sei que você não está aí, não chegou da faculdade. Vou também escrever, Catherine. Te mandar meu sentimento por carta porque acho que você não ouve essa coisa, nem sei por que comprou. Sei que não vai ouvir nunca. É uma pena, porque, é certo, a gente expressa muito melhor no silêncio do que na interação esse absurdo todo, esse indizível, esse imponderável que afinal de contas é o desejo.

Eu e você. Isso deveria ser preenchido com tintas mais fortes. Eu me pergunto por que essa frase, esse fato sintático “eu e você”, tem que ser só uma aglomeração de palavras e não um episódio concreto do mundo real. A gente muito debateu isso, mas não nos termos certos: era para eu deixar de ser esse ausente espectro no cume da montanha noturna que você vê brilhar às vezes lá longe, fora do foco da tua câmera. Era para eu estar no quadro e para isso bastava só um chamado, ou um clique no botão que os teus dedos ainda não encontraram a vertigem certa para apertar.

E quando eu tentei te dizer estas coisas não tive como não ser triste. Quisera eu estar aí e te revelar a minha não-tristeza. Acredite, eu sou mais do que nunca e resolutamente de uma vez por todas um tipo não-triste. Deslizar no romantismo ou no idealismo também não é comigo. Quero ser concreto e maciço, bruto, cortante e colérico. Sou? Como saber?

Essa gravação você pode pôr o teu terapeuta para ouvir, Catherine, ele que te encorajava a não reprimir mais o teu desejo. Para ele saber um pouco mais o que é o teu desejo, ou o teu não-desejo, que ao fim e ao cabo entra igualmente como um desejo só que com o sinal invertido, por isso mais forte e inescapável. Talvez ajude, já que você ainda não tinha encontrado as palavras que o definissem, o seu outro, esse outro distante, esse qualquer coisa no caminho, esse enigma que envolve os teus sonhos. Eu, Catherine.

Sei que combinamos, eu e você, de evitar voltar a esse tema: eu e você. Combinamos? É difícil subir à superfície depois de mergulhar em águas tão profundas...

sexta-feira, 27 de março de 2009

Enxaqueca


Ela veio sem cerimônias. Tudo silencioso, tudo consertado, pacífico, naquele dia. Eu, no meu quarto, sobre uma montanha de memórias. Revoluções atmosféricas do lado de fora, é certo. Mas o vento parava ao perceber a porta fechada do quarto. Vi minha sombra sorrir ali atrás, meu vulto era um tapete deitado no chão branco.

Folheava páginas envelhecidas de lembranças. Revi cenas, reescrevi com a imaginação as falas, juntei palavras ditas. Misturei tudo num discurso jamais dito. Olhei a tela negra da TV e meu reflexo era um desfile de alegorias azuis. O tempo fez uma pausa. Ao retomar a visão, senti o peso das minhas pálpebras.

Foi quando ela chegou. Veio com dois martelos na mão, decidida a destronar minha mente, despregá-la de onde estivesse pendurada. Mil ratos alucinados correram convulsos para fora da toca e o eco que se podia ouvir era uma nota desafinada. Os soldados do meu país tombam inertes no horizonte escuro. Um porta-aviões na vertical, plantado no mar. Um deus desvairado derrubando o sótão. Ela veio desse jeito, tão repentinamente que eu não pude lhe estabelecer uma forma nem adivinhar a fisionomia.

Tornei-me espectador da minha desgraça. Olhos ao contrário, podia ver um exército de rochas em duelo contra o muro e eu no meio, um tigre gordo suspenso por um fio que se desfaz, uma briga de galos no box do banheiro – indecentemente limpo.

Eu me abrigava em cobertores, apagava as luzes, procurava fechar os olhos com chave, e até fiz isso, mas mesmo assim não podia deixar de perceber, lá longe, um relógio imortal a gritar uma música circular. Ruídos periódicos, uma espécie de bomba escondida nos alicerces do prédio do meu corpo. Vindo estereotipadamente, chegando, chegando, pisando cada passo.

Ela me possuiu inteiro. Sua seiva jorrou no mesmo rio das minhas lágrimas e seu coração de granito chocou-se contra o meu, feito bola de bilhar, expulsando-o para debaixo da mesa.

Não foi embora, ficou aqui, cheia de raízes. E não posso mais dizer que sou dono dos meus pensamentos.

domingo, 23 de novembro de 2008

Ei, Caxambu, vai tomar no...


A cidade de Caxambu, Minas, não é assim tão pequena como muitos pensam. Eu pude comprovar isso nesse último congresso de Ciências Sociais. Não tem nada de interessante na cidade quando você vai pela segunda vez, então o que resta é passar o tempo bebendo com os amigos. No meu quarto ficaram três outros caras: um chileno, um paraibano, e um sujeito de Pelotas, e a gente, na última noite, resolveu comprar uma coisa diferente. Era uma bebida rosa, parecia uma batida de morango, mas muito alcoólica e vinha em umas latas muito pequenas. O chileno pegara carona na noite anterior com um caminhoneiro que também vendia isso no bar. Sim, um caminhoneiro dono de bar, ué. A gente ficou bebendo aquilo a noite toda e, quando chegou de manhã, hora de se dirigir à rodoviária, eu já estava muito louco. Cara, eu já estava bêbado, então eu abro o frigobar do quarto do hotel e me deparo com mais um monte daquela bebida maluca estocada! Será que alguém ia revender? Peguei algumas latas para ir bebendo no caminho. Mochila nas costas, parei no ponto do ônibus que ia me levar à rodoviária. Reparei que os hotéis se desocupavam, as sujeiras das festas eram varridas e a cidade voltava ao que era. Os comerciantes contando dinheiro e eu ali bêbado, nem notei que peguei o ônibus errado. Até vi que as pessoas dentro da condução não tinham o naipe de quem está saindo de um hotel rumo a uma rodoviária, elas nem carregavam bagagens. Mas resolvi esperar, a fim de saber para onde estávamos indo. Acho que a viagem durou mais de uma hora. Fui bebendo durante todo o trajeto e às vezes, entre uma dose e outra, tinha a esperança de que na próxima esquina surgiria a bendita rodoviária.

Mas não. O motorista nos despejou num lugarzinho que eu nem sei se pertence a Caxambu, bem longe. E eu por acaso fui parar na parte boêmia do bairro. Em pleno sol escaldante, fui me embrenhando em um recinto não muito bem freqüentado em busca de um banheiro. Não sei se era um grande boteco ou o quintal de alguém. Muitas pessoas ali, parecia um churrasco de confraternização ou algo assim, várias mesas e cadeiras de metal e garrafas de cerveja e pessoas empoleiradas umas nas outras ao som de funk, eu fui abrindo caminho e pedindo passagem. Lembrei da cena do filme do Beto Brant, “O invasor”, na qual o personagem principal adentra a esmo um inferninho brega e a câmera gira em torno dele. Eu estava assim, parecia que tinha uma câmera girando ao redor da minha cabeça. Uma garota mexeu comigo, “Psiu, psiu”, e fez como se fosse segurar minha mão. Não sei por que, eu e ela ficamos abraçados sem falar nada. Até que eu sussurrei em seu ouvido: “Eu estou louco.” Ela se desgrudou na hora, horrorizada, o rosto cheio de pena. Eu queria pelo menos voltar ao hotel e descansar um pouco e essa minha doidice súbita passaria. Disse isso a ela, pedi ajuda. Então ela se dirigiu a uma amiga gordinha sentada debaixo de uma sombra na entrada. A gordinha me olhou e foi falar com um sujeito sobre o meu caso. Ficaram os três conversando atrás de uma bancada de jogo do bicho. Eles informaram que o Hotel Glória era longe, que era melhor pegar um táxi. Eu poderia telefonar para uma central de táxis, do meu celular. Mas qual o número? Ninguém sabia. Aí a gordinha, não sei por que, meteu na cabeça que eu era gringo e principiou a falar em inglês comigo. No que eu respondi: “Pardon, je parle uniquement français, mademoiselle”. Ela ficou bem assustada, coitada.

Eu não sabia realmente o que fazer. Foi quando percebi lá do fim da rua um táxi salvador vindo na minha direção. Mas que merda, ocupado. Pelo menos o número do telefone da empresa estava estampado na lateral. Anotei. Puxei o celular e disquei. Nenhum som. Tentei de novo e nada. Muito estranho aquilo. Parecia que ia completar a chamada, mas na hora h, alguma coisa errada acontecia e o telefone ficava mudo. “Ah, querem saber, eu vou é a pé!”, disse com raiva. Fui andando tonto pela avenida de onde viera o meu ônibus. Uma avenida cercada de casas, biroscas, lojas de pipas e confeitarias de lado a lado. Segui acreditando que ela me conduziria de volta ao hotel. Eu fui andando, andando e andando e depois andei mais. Me ferrei bonito. A avenida foi desembocar numa subida de favela. Puxei de novo o celular. Não é possível que esse número não chame! Nada aconteceu. Mudo de novo. Será que eu anotei errado? Dei meia volta pela avenida. Já sei, olhar as placas. Se eu me guiar por elas eu chego ao hotel. Numa delas vai estar escrito “Hotel Glória a 50m” e eu poderei descansar um pouco para aí então pegar o ônibus certo até a rodoviária. Vi uma que dizia “Centro” e mandava dobrar à esquerda. Fiz isso e dessa vez cheguei num trecho de rua que descia bruscamente, como se ela tivesse sido pavimentada sobre um vale profundo. Executei a descida com perfeição, apesar de um pouco cambaleante. Estranha aquela geografia. Toda uma parte da cidade em um nível muito abaixo do restante. Se der uma chuva muito forte aquela área vira um grande lago. Pelo menos atrairia turistas.

Aproveitei a sombra do muro de uma igreja para descansar um pouco. Parecia ser a igreja principal da cidade. Fui perguntando às pessoas dali se elas sabiam o número de alguma empresa de táxis, mas ninguém sabia. Contornei a igreja e abordei um grupo de mulheres de semblante amigável, coisa rara ali. Elas me disseram que aquele número anotado estava certo, sim. Que talvez fosse problema no sistema deles. Fui andando próximo a elas até que uma me perguntou de onde eu era. Foi aí que me lembrei de um detalhe e resolvi o enigma. Eu deveria digitar o DDD de Minas antes de qualquer chamada, já que o meu celular é do Rio. Nossa, eu bebi tanto que o meu raciocínio tinha se esvaído. Daí eu disquei o código e em seguida o número da empresa de táxis e deu certo! O táxi demorou um pouco, mas veio. “Pra onde vamos, senhor?”. “Pro Hot... Ah, toca pro Grajaú!”. “Hã!?”. “Quer dizer, Hotel Glória.”. “Ah, tá”.

domingo, 14 de setembro de 2008

O universo cabia naquele quarto


Ela seguiu pelo corredor do andar de cima e adentrou o quarto, que ele mantinha sempre caótico, acumulado de manuscritos e rascunhos de livros nunca publicados, CDs de Jazz furtados, livros do Bukowski na cama e lençóis revoltosos. Pôs as mãos na cintura e fez uma pose fútil, balançando os quadris enquanto perguntava:

– Por que você não foi sábado no Noites Dançantes e quando eu te liguei parecia um velho reclamão que não gosta de nada e fala mal de tudo? O que você fez sábado? Você já foi no Noites Dançantes?

E ele, dedo indicador ao alto e as coxas sustentando uma xícara de café, respondeu, com um sorriso de velho numa fisionomia de 19 anos:

– Sábado eu fiz um poema imortal, ô garota. Você já fez um poema imortal?

Então se virou para a janela e continuou a olhar a chuva fina do final da tarde.


quarta-feira, 30 de julho de 2008

Vazio


vazio é o vácuo
buraco no espaço
hiato no ato
omissão na ação
o oco do coco
e o vão da visão.

minh’alma vazia
jamais saberia

que entre voz e mensagem
som e ouvido
o vazio faz sentido
se o sentido se desfaz.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Aff... deixa eu dormir


O show tinha terminado tarde da noite e a gente guardava os instrumentos suados em suas capas de couro quando, na porta da antecâmara minúscula onde estávamos, que os entendidos de metáforas até poderiam chamar de camarim, surgiu o dono da birosca:

– Por que não saíram ainda, porra? – disse isso e voltou ao seu lugar, atrás da caixa registradora, lá no balcão da entrada.

Alyson, nosso vocalista, apoderou-se de uma cadeira e com ela quebrou o espelho a golpes precisos e também todas as lâmpadas em volta, uma por uma. Lá na frente do bar não era possível ouvir os barulhos porque a porta já estava fechada. Cacos de vidro e vinho no chão sujo. Ele sempre tinha essas exaltações coléricas pós-show. Eu soube mais tarde que esse era o seu o método para lidar com a síndrome do pânico. Durante o show era como se ele armazenasse um estoque oculto de angústia e aí no fim descarregasse o acúmulo em forma de raiva. Naquela época, como agora, os motivos de angústia se multiplicavam como se brotassem de todos os lados, era só ligar a televisão e comprovar isso. Cada um tem o seu método para não enlouquecer de vez. O do Rafael era tacar porrolho na cabeça das pessoas felizes. O do Jadilson era aplicar um Hadouken nas mulheres que o rejeitavam. E o do Alyson era bater com as pernas de uma cadeira convulsivamente no meio de um grande espelho iluminado.

Caímos fora dali rapidinho, pelos fundos, com garrafas de bebidas nas mochilas. Mais uma noite dessas em que a gente pensa “puta que pariu, vamos esquecer tudo isso”, só para no dia seguinte relembrar cada minúsculo evento entre um cálice e outro de vinho amargo na varanda do Felipe.

Fiquei na calçada, sentado num desses blocos de concreto, usados para os carros não estacionarem na calçada, ouvindo os outros da banda discutirem aonde iríamos àquela hora da madrugada. Tanto frio que nem a garrafa de Velho Barreiro que a gente dividia poderia diminuir meu mal-estar. Jogados no meio da rua, sem uma viva alma circulando pelas esquinas desertas. Só o Chico mesmo para nos alegrar, ele que quando dava uns tragos além da conta ficava babando feito criança e era nosso fã. Quem o via conosco, pensava que estávamos conversando com um desses bêbados do asfalto que os botecos do Rio produzem em escala industrial, ou então com um desocupado cheio de pulga. Quer dizer, acho que ele era mesmo um desocupado cheio de pulga, mas contava histórias ótimas da época dele, dos tempos áureos, e a gente até esqueceu que naquela hora os ônibus tinham parado de circular.

Aí vimos que a Cristiane estava de carro, uma salvadora! Veio ela guiando aquele latifúndio improdutivo sobre quatro rodas. Ela nos conhecia e tinha assistido ao show e tudo mais, tínhamos amigos em comum. Entramos na frente destinados a fazê-la parar. Fui lá falar com ela, que me olhou e disse:

– Sobe aí, cara. Dá pra dormir lá em casa, os garotos da banda também.

Subimos no carro. Lógico que o Chico também foi. A gente não podia deixá-lo sozinho ali naquele fim de mundo tosco e violento. Na verdade não havia mais lugar quando Chico entrou, por isso ele teve que ir no colo de alguém, o meu, pra variar.

Chegamos à casa da Cristiane e nos repousamos na sala aconchegante, recostados em almofadas de veludo. Chico aninhou-se imediatamente no maior puff do recinto e ali ficou, olhando o teto e falando sozinho enquanto puxava o maço de cigarros. Vários bibelôs extravagantes em volta, quadros imponentes com cenas mitológicas, porta-retratos de pessoas alegres, penduricalhos brilhantes agarrados às paredes, e o Alyson enfaixando seu pulso ensangüentado, atingido pelos estilhaços daquele espelho nos fundos da birosca.

Chico sorriu ao observar uma coruja ornamental maia com as patas solenemente firmadas numa base de ébano, e olhou na minha direção:

– Coisa fina, heim?

– Isso é gente bem selecionada – respondi.

Veio a mãe da Cristiane enfiada em roupas de dormir. Girou o olhar na nossa direção, balbuciou palavras indecifráveis em diálogo sonolento com a filha e então percebeu o Chico viajando na dele, fazendo uma fumaça. Ela fez uma cara como se estivesse abortando ali na hora, mas contendo a aflição. Ficou recolhendo as cinzas sobre o tapete com um aspiradorzinho de pó.

Fui ao banheiro dos donos da casa vomitar. Não consegui. Temia que o pai da Cristiane, roncando na cama, escutasse os sons. Fiquei ali parado e ouvi a mulher dele entrar no quarto:

– Gilberto, tá acordado?

– Merda, são três horas da manhã, o que você acha?

– Tem uns amigos da Cristiane querendo dormir aqui.

– Ué, fazer o quê, né.

– Eles são esquisitos.

– E daí, Regina? Você é meio anã e dorme aqui há vinte anos, não dorme?

– É que... tem um homem junto com eles.

– O quê?

– Tem um cara ali com eles.

– E agora?

– Ô Gilberto, faz alguma coisa.

– Aff... deixa eu dormir, deixa.

Uma hora depois, quando estávamos numa varanda escura nos tornando zumbis aborrecidos, veio a Cristiane aconselhar que nos retirássemos para esperar os ônibus do amanhecer. Fui ao jardim e vomitei num cesto de lixo grande. Os cachorros latiram, mas em seguida voltaram a se enroscar uns nos outros dentro da casinha em forma de castelo, cansados demais.

E aí saímos no silêncio, ziguezagueando rua afora.


segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tira esses óculos e chora


Tira esses óculos e chora,
sem nenhum objetivo.
Do mesmo jeito que as nuvens choram
e são felizes.

Chora mergulhada em você mesma,
sem medo de ninguém, sem vergonha, sem máscara.

Seu choro mostra aquilo que as palavras não revelavam,
aquilo que nunca conseguimos dizer.

Chora porque essa paisagem na sua janela é aonde eu quero deitar.
Você sabe que os seus soluços soam como um hino só nosso.

Chora como quem festeja existir,
com os olhos abertos, grandes, sensíveis,
na minha direção, fixos,
inundados de sentimentos.

Eu quero me banhar nessas lágrimas
e me purificar completamente.
Assim poderei ser plantado no mundo real.