Um bilhete.
Fui embora
para ser feliz com o amor da minha vida.
Lágrimas
embaçaram as palavras escritas à caneta, as letras se misturaram numa dança
molhada de dor. O espanto atiçou tremores nas mãos de um pai atordoado. Puxou da
lembrança os trejeitos do infeliz que se interessara por Josephina. O seu
sotaque lusitano, as ferramentas de pedreiro numa sacola de couro que não vê
luz, o jeito furtivo de vagabundo que não pega obra, sem modos. Os bolsos
vazios, tão vazios como o bonde que levará esse pai à delegacia de polícia relatar
a fuga.
Doze
anos, a pequena. A rua inteira sabia. Meses de cochichos, rumores sobre os seus
passos ariscos, boatos que pouco a pouco se comprovaram. Olha, Ernesta, vieram
me contar que a Josephina está se interessando por um português de quarenta
anos de triste fama, de navalha e carteado, de dívida de botequins. Não quero a
desgraça da minha filha. Disse a ela que não e que não viesse me aborrecer,
tantas sacas para embarcar, balanços a fazer, tantas cobranças nessa lida difícil
de pequeno empório. Me ajude aqui a equipar as carroças.
Preguiça
do delegado, outros casos mais urgentes na frente, a busca precisava ganhar
logo as ruas, com ou sem diligências, na surdina, que seja. No encalço de sombras
fugidias por rotas de penumbra, esse pai iria às muitas rinhas de galo do
centro, aos cortiços mais abafados, lar de foragidos, aos trapiches aonde as
cargas proibidas se negociam. Dobraria as esquinas mais infames, atalhos
sórdidos. Ao Mangue, aos antros do Mangue. É para lá que fora levada, ele tinha
certeza. Baseado em quê? Não se sabe. Apenas o faro de um pai inquirindo os
passantes nas calçadas sujas.
A
notícia correu, vizinhos se movimentaram, fregueses de confiança trouxeram
informes valiosos. Um endereço foi citado na discrição de uma tarde, tomou-se
nota. Vultos que correspondiam ao que se falou dos suspeitos. As pegadas dos
dois foram seguidas por confins de terra batida, rincões tortuosos em beiras de
rio. Avistou a casa de telhas jeitosas, uma casa suburbana amparada pela imagem
de São Sebastião no alto de um alpendre, os cachorros em alerta, à cata dos pés
que entraram pela porta depois de esfregar com força o tapete, muita lama. Esse
pai se apresentou às pessoas ali sentadas entre almofadas, o senhor de chapéu em
mãos, sua esposa de vestido rotineiro e os cinco filhos de diferentes idades e
fisionomias, expressões modestas. Foram servidos café e bolo de milho. Nenhum
daqueles portugueses presta, exclamou esse pai. Sou italiano e não tenho nos
meus planos casar uma filha com um pedreiro que não pega obra. Ouviu então que,
sim, ela se encontrava na casa dos fundos e não queria vê-lo. O português na
rinha de galo e a menina reclusa feito pássaro engaiolado. São essas as paredes
que ele ergue?
De volta
aos secos e molhados, aos labores cotidianos, os frontais por pintar, os galhos
descaídos, as fiações, Ernesta, eles querem a união e rogam pela minha
assinatura, doze anos tem o nosso anjo. Invoco a justiça para impedir uma tragédia,
a perdição de uma inocente. Aos tribunais. Vamos aos tribunais. O trabalho só
vem quando faz sol ou quando os galos ficam doentes? Que imigrante é esse,
Ernesta?
Josephina
agora com treze anos, toda a pulsação de um tempo não celebrado, a recusa de
qualquer festejo, sem sopro e sem velas. Notícias frescas na voz de conhecidos,
vou falar o que é aquele lugar onde sua filha está morando. Aquela casa de
fundos dorme de dia e desperta à noite, as portas para a rua de trás se abrem, o
clarão vermelho chama, a compostura ali é suspensa, as vergonhas se exibem, entram
olhos lascivos, a volúpia bem paga, recreio noturno remunerado ao som de música
francesa, generosas somas. Aquela família da frente é quem recebe, alcoviteiros
que contam as notas da malícia. E ela? E ela, nisso tudo? Esses informantes traziam
o testemunho de alguém feliz, de alguém que sabe os dissabores de uma vida
cortesã e ao mesmo tempo prometeu casar-se, alguém que anseia pela garantia do
papel passado e de um futuro protegido, conjugal, em aliança de seres que se
unem pela bonança e tranquilidade. O testemunho de alguém que só quer a
aceitação e não o silêncio dos seus.
Numa manhã, a justiça, em sua frieza celestial, olhos de pedra e braços de madeira, requereu, clamou pela assinatura, a benção desse pai na certidão que lhe abriria passagem para o infortúnio dos santos homens e ele se apresentou. Dentro do corpo da justiça, o respirar dos saguões, a estatura dos ambientes, a grandeza sem fim dos espaços de sombra ao som dos escrivães. Os sapatos não tocavam o piso de mármore, a cadeira alta. Tremeu entre os rábulas. Alisou as costeletas, aprumou o terno, empunhou a caneta feito uma arma, o tiro de misericórdia, o rabiscar largo de um danado, rubricou folhas, agasalhou-se e ganhou a rua para ir, cabisbaixo, orquestrar o empório.